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Pensei numa estrutura deste tipo para o primeiro workshop:

 

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Não é para me gabar, mas acho que levo jeito para isto. 

 

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publicado às 19:37

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publicado às 00:21

Férias

por MC, em 19.06.16

 

O autocarro vai cheio. Paira no ar abafado o cheiro intenso a fim de dia de trabalho em tarde de calor. A mulher percorre, a custo, alguns centímetros do corredor do veículo. O braço livre ampara os dois garotos colados a si. Com pequenos sopros, tenta afastar do rosto alguns fios de cabelo transpirados e peganhentos. Fareja discretamente o seu próprio braço levantado, receosa de estar a contribuir para o odor acre que encharca o ar.

É sempre a mesma coisa, pensa, este misto de sudação e angústia, todas as vezes que há reunião de pais. Fartinha daquela gente, dos olhares críticos, da condescendência doutoral de quem não a conhece de parte nenhuma. Crianças indisciplinadas e conflituosas? Que é lá isso, pensa, enquanto acaricia as cabecitas e sente sob os dedos a escovinha rente que desbastou os caracóis rebeldes e desalojou a enésima praga de inquilinos indesejados. Era o que faltava, continua a remoer, enquanto respira com força, como fera a resfolgar. Meninos desobedientes e sem regras? Total indiferença perante a autoridade do adulto? A sério? Mas quem é que aquela gente pensa que é? 

Uma voz pequenina afasta-a da cisma. “Mamã, olha, há ali lugares! Vamos sentar, mamã! Vamos sentar, mamã!” “Eu também quero, deixa-me passar primeiro, deixa-me passar primeiro, saiiiiii da frente”, riposta outra, ainda mais infantil.

“Esperem, não pode ser, não vêem que não podemos passar? Há muita gente, as pessoas lá perto do lugar é que se vão sentar. Estejam sossegados.”

“Nããããoooo! Nós queremos sentar! Nós queremos sentar! Vamos para lá”. A cantilena a duas vozes ecoa no autocarro e, num repente, já as mãozitas soltaram o vestido da mãe e os pequenos pés, de delicadas botas ortopédicas, pisoteiam implacavelmente o populacho, a caminho do longínquo lugar vazio. “Esperem, venham para aqui já”, lança-lhes com um vigor fingido, a camuflar o embaraço que sente.

Mas já o mais velho está a chegar ao almejado lugar, onde se deixa cair com estrépito, abalroando todos à sua passagem. Revolta-se então o mais pequeno, que também quer sentar-se; puxa o irmão infrutiferamente pela camisola, grita-lhe impropérios e atira-se com ousadia à refrega, esbracejando em todas as direcções. Ainda lhe diz para ter cuidado a senhora balofa do assento contíguo, que já levou, por simpatia, dois ou três tabefes; mas é rapidamente silenciada com um mimoso “cala-te, tu não mandas em mim. És munta gorda. E cheiras mal”.

A mãe encolhe-se, numa tentativa desesperada de desaparecer na multidão. As gotículas de transpiração estão agora tingidas do rubor das faces. “Porra para as férias”, rumina, “nunca mais acabam”.

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publicado às 16:33

O Rei vai nu

por MC, em 26.05.16

art-glasses (1).jpg

"Several visitors to the San Francisco Museum of Modern Art this week were fooled into thinking a pair of glasses set on the floor by a 17-year-old prankster was a postmodern masterpiece.

To test out the theory that people will stare at, and try and artistically interpret, anything if it’s in a gallery setting, Khayatan set a pair of glasses down and walked away.

Soon, people began to surround them, maintaining a safe distance from the ‘artwork’ and several of them taking pictures.

The teen behind the hoax had similar success with a baseball cap and a bin."    (daqui)

 

Dá-me ideia que 'o rei vai nu' com cada vez mais frequência. Não sei se a 'monárquica tendência' é apenas uma coisa estúpida ou potencialmente preocupante. 

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publicado às 18:10

 

A minha opinião? Claro que dou… isto vai passar quando? Ai está em directo? Nas notícias da tarde? Bem, então é assim: nós estamos aqui - pais, professores e funcionários - para defender o nosso colégio e vamos ficar aqui até nos ouvirem, nem que seja todo o dia e toda a noite! Nós, os cidadãos deste país, pagamos os nossos impostos e por isso devemos ter o direito de escolher a escola dos nossos filhos! Hã…?

Sim, sim, conheço a escola pública, fica ali ao fundo da rua… até dizem que é muito boa, que ficou em primeiro lugar nos ranques - ou lá o que é isso – no ano passado… Mas aquilo não é para o meu Micael… ele já lá andou, mas chumbou duas vezes – os professores lá são muito exigentes, puxavam muito por ele, coitadito – até que o mudei aqui para o colégio e ele agora até tem boas notas, veja lá o senhor! Os professores aqui compreendem-no melhor, entende?

O meu Micael, lá na outra escola, só gostava de uma professora, era a única que tinha paciência para ele, mas chegou ao fim do ano e ela teve de se ir embora, porque foi a um concurso, está a perceber, e ficou colocada numa escola muito longe; fartou-se de chorar, coitada, porque ela queria ficar ali e os alunos também queriam que ela ficasse… e vai-se a ver mandaram-na para longe. Diz que havia outros professores com melhores notas ou médias ou quê e passaram-lhe à frente! O senhor está a ver isto? Mas que país é este, senhores? Já não há justiça?

Já aqui, no Colégio de Santo António da Cunha, isso nunca acontece! Os professores aqui não vão aos concursos, que é lá isso?! É como diz o senhor director, “aqui somos todos uma grande família”! E olhe que ele não diz isso só por dizer, é mesmo verdade, ora veja lá: a professora de Português do meu Micael, por exemplo, é sobrinha do senhor director, o marido dela é professor de Matemática e a professora de Ciências é filha da subdirectora, que por acaso, até é cunhada do senhor presidente da câmara! Está a ver? É tudo gente da terra, tudo boa gente, que se ajuda uns aos outros, entende?

Não há direito de virem agora dizer que não posso cá ter o meu Micael! Era o que faltava, depois de eu ter gasto um dinheirão nas t-shirts com o emblema do colégio e nos fatos de treino e no uniforme! E olhe que bem me vi aflita para os comprar, nem queira saber! E o estado chegou-se à frente nestas despesas? Hã? Era o chegavas! Acha isto bem? Paguei eu tudinho e olhe que, nesse mês, o que me valeu foram umas coisinhas que a minha sogra trouxe lá do banco alimentar, senão estava a coisa malparada, que o subsídio é uma miséria, não dá para nada!

Mas olhe que foi um dinheirinho muito bem empregue, lá isso foi! Olhe que o meu Micael nunca mais vestiu outra roupa: sai de casa muito brioso todas as manhãs com a sua t-shirtezinha do colégio, com aquele emblema de bordadinho dourado, para fazer ver àquelas songamongas soberbas da vizinhança que não somos nenhuns pelintras!

E agora isto? Fazem uma coisa destas ao povo que tanto lutou pela liberdade e pela democracia e pelos seus direitos? Admite-se isto? Não há de uma pessoa ficar indignada? É uma vergonha, é o que é.

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publicado às 22:00

Apuramento do ilícito (2)

por MC, em 01.05.16

Os rapazes continuam sentados no gabinete. Os olhares arredios, perdidos nas pequenas imperfeições da parede, evitam cruzar-se. As caras vermelhas e transpiradas vestem-se dos trejeitos distraídos de quem se embrenha em pensamentos agitados. O director, sentado à secretária, procura contactos, toma notas, lança olhares zangados e vigilantes na direcção dos velhacos. A mão estaciona, de caneta esquecida em punho, a meio caminho da folha.

O pensamento escorre-lhe para dentro de si, vê-se menino ainda, recorda o olhar sério e interessado do seu pai quando, ao serão, lhe fazia perguntas sobre a escola. Revê os seus livros e cadernos abertos na mesa da sala, onde fazia os deveres. Os dedos maciços e tortos do pai, pouco habituados ao rendilhado fino das letras, folheavam as páginas carregadas de caligrafia miudinha e irregular com a delicadeza inesperada de quem degusta um privilégio. Desde cedo entendeu claramente, apesar da imaturidade da meninice, que o valor que o seu pai atribuía ao conhecimento e à educação era tão desmesurado que jamais abriria no seu entendimento uma brecha de tolerância para faltas de respeito ou comportamentos despropositados. Sempre sentiu, desde que se entendeu como gente, o reinado absoluto da razão inapelável de um adulto sobre uma criança, mais ainda se esse adulto fosse um professor. 

O olhar foge-lhe para os tratantes, o semblante carregado de zanga e incompreensão. Pega no telefone e ampara, com o indicador, o primeiro número que anotou. “Pronto, vou agora ligar para tua casa, menino Diogo”, informou com secura e agastamento. “Os vossos pais vão ficar muito contentes convosco, vão, vão”, continuou, “quando eles souberem a despesa que vão ter por causa da vossa gracinha!” Respirou fundo para engolir a arrelia. “E a tua mãe, Diogo? Já pensaste como ela vai ficar quando souber que vais apanhar uma suspensão outra vez? Isso não te preocupa? Não pensaste nisso? Hã?”

O Diogo pensou. Pensou na sua mãe e tentou recordar-se de quando a vira pela última vez. Anteontem? Não, ontem de manhã. Fora chamá-la logo cedo, antes de ir para a escola, porque precisava de dinheiro para pagar as refeições na escola e comprar folhas de ponto. Encontrou-a ferrada a dormir. Respondeu-lhe um resmungo numa voz mastigada de sonâmbula e atirou-lhe com a almofada quando ele insistiu. Quando chegou a casa, à tardinha, ela não estava. Deixara-lhe um recado, rabiscado no verso da conta do supermercado: “saio tarde; se quiseres jantar vai a casa da avó; se não quiseres, come pão, há manteiga no frigorífico; não fiques a ver televisão até tarde”. No espaço livre do papelito, o Diogo escreveu: “quando chegares não te esqueças de assinar o teste de Ciências, ontem não assinaste e a parvalhona da setora passou-se, marcou-me falta”. 

Depois ficou alapado no sofá, a ver séries madrugada a dentro. Acordou de manhã, enregelado e baboso. O teste de Ciências lá estava, em cima da mesa, intocado, o bilhetinho ainda encostado a ele. Os olhos baços do sono percorreram a cozinha, o saco vazio lembrou-o de que tinha comido o pão todo na noite anterior. No frigorífico encontrou uma caixa com uma substância indefinida e espapaçada, de forte odor acre. Retraiu-se com um esgar de nojo e fechou a caixa rapidamente. Calçou as sapatilhas e saiu para a escola. Teve outra falta de material. Faltou a Matemática para ir almoçar. O resto já se sabe.

O director continuava a mirá-lo, os olhos muito abertos de perplexidade, à espera da resposta à sua pergunta. “Agora não dizes nada, não é? Ok, vamos lá ver o que a tua mãe acha.” O Diogo observava-o enquanto marcava os dígitos uma vez e outra e mais outra. Via-lhe o olhar frustrado e a impaciência dos gestos, a experimentar sem sucesso os números de contacto de que dispunha. Sorriu dissimuladamente, de cabeça baixa, e cochichou entre dentes: “Sim, sim, vai tentando… boa sorte aí, mano!”

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publicado às 23:31

Apuramento do ilícito

por MC, em 24.04.16

“Sim senhor, muito bonito! Pois cá tenho os cavalheiros novamente no gabinete! Então esta é a terceira vez este ano, senhor Diogo? A quarta? Muito bem. E o seu companheiro de parvoíces mais uma vez a acompanhar, não é verdade, senhor Marcelo? Então desta vez arranjaram-na bonita, não é?”

Os meliantes, de olhar baixo, escondido pelo sombreado das pestanas e pelos cabelos em desalinho, simulam recato e apoquentação. Os ombros hirtos seguram os braços cruzados de mãos escondidas nas axilas e apenas o bater inquieto de um pé trai o cenário de impassibilidade.

“Ora então, vamos lá a ver: os senhores resolveram não ir à aula de Matemática, pois foi? E decidiram então que seria muito mais interessante ir agredir os colegas mais novos na fila do refeitório, certo?”

“Não foi nada disso”, rugiu o Diogo e respirou fundo, numa tentativa esforçada de transformar a raiva em razoabilidade. “Nós íamos almoçar. Eu estava uma beca maldisposto, porque… bem, eu hoje não comi nada de manhã e estava esquisito da cabeça e não ia ficar a apanhar alta seca na aula de Matemática durante uma hora e meia e então disse ao Marcelo que ia mas era comer e ele disse que vinha comigo e eu disse-lhe ‘tá bem”. O Marcelo abanava a cabeça para cima e para baixo em enérgica confirmação. Resolveu aproveitar o momento para adicionar argumentação razoável: “eu não ia deixar ele ir sozinho, ‘por causa que’ ele estava maldisposto e quando as meninas estão maldispostas nas aulas e pedem para ir lá fora os setores deixam sempre uma amiga ir com elas, não é? Então pronto”, concluiu com propriedade.

“Bom, depois já voltamos a questão da falta à aula. O que eu quero saber agora é como é que chegámos à situação do aluno do sexto A ter de ir ao hospital para ser tratado – para vossa informação teve de levar seis pontos na testa e vai ficar lá em observação para prevenir mais problemas; da dona Adélia ter um braço todo negro; da vitrina quebrada; e ainda a questão dos óculos do rapaz, que estão neste mísero estado”, conclui, exibindo a prova número um, a saber, uma armação de arames retorcidos, onde outrora presumivelmente se encaixavam lentes, agora desaparecidas.

“Nós só queríamos ir almoçar…”, começa o Marcelo, procurando arduamente encontrar palavras simpáticas que neutralizassem a feiura do ocorrido. Foi instantaneamente interrompido pelo companheiro com um gesto firme da mão.

“Deixa-me contar a mim. Nós chegámos à porta do refeitório e dissemos aos putos que lá estavam: “a gente vamos passar à frente que estamos com pressa” e eles chegaram-se para o lado, mas aquele choninhas do caral… - travou a fundo perante o olhar contundente do director e reformulou o discurso – o Daniel não deixou e começou a dizer que tínhamos de ir para a fila e blá blá blá e portanto tivemos de lhe aviar um bochecho valente no meio das trombas. Eu ainda o chamei à razão e disse-lhe: ‘ouve lá, ó betinho, eu não sei como são as regras lá na tua rua, mas lá de onde eu venho os grandes mandam e os pequenos obedecem, tás a ver?’

Mas o chavalo mesmo assim não atinou e começou a berrar ‘ó D. Adélia ó D. Adélia’ e começou a fazer ali um chavascal, guinchava que parecia que estava a pisar pioneses e eu mandei-lhe uma bucha mas ele é uma florzinha de merd… um fraquinho da treta e caiu todo junto para cima da vitrina e nessa altura a D. Adélia, que vinha a correr para acudir à coisa, tropeçou aqui no pé do Marcelo e disse f*da-se e esbardalhou-se em cima do choninhas que por sua vez já estava dentro da vitrina. E foi isto.”

Olhou com desapego e displicência para o seu interlocutor e ainda o agraciou com um esclarecimento ilustrativo da sua razão: “é como diz o meu pai quando a minha mãe se começa a esticar: ‘ó rapariga, tu féte atencion, que quem não tem dentes fortes não se aventura a trincar entrecosto, tás a perceber?!’ E olhe que ela acama logo que é um mimo!”

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publicado às 20:54

Detox

por MC, em 20.03.16

O ginásio está cheio de pessoas e movimento, as vozes e barulhos das máquinas amortecidos pela música que as colunas debitam, a batida vigorosa a inflar energia nos mais renitentes. Na frente da imensa parede espelhada do fundo da sala, os rapazes meneiam-se para um lado e para o outro de pesos nas mãos. Ensaiam posições arrevesadas, posam de músculos retesados e semblantes carregados, a sobrancelha levantada a revelar o esforço displicente, as roupas vistosas manchadas do suor da labuta.

As raparigas correm nas passadeiras alinhadas junto às grandes paredes de vidro, as sapatilhas coloridas a calcorrear quilómetros, os olhares delas percorrem o recinto e demoram-se, avaliativos, nas lides dos moços. Entreolham-se a espaços, num riso cúmplice de apreciação ou troça.

Ao fundo, na penúltima passadeira, um homem de idade caminha lentamente. No tapete quase parado, esforça-se por continuar a levar um pé à frente do outro, a perna esquerda revela o arrastar característico das maleitas vasculares, o braço sem vontade própria inerte ao longo do corpo. Na passadeira ao seu lado caminha calmamente a mulher, o cabelo grisalho preso num singelo rabo-de-cavalo, os olhos sempre atentos aos movimentos lentos do homem.

As meninas estão agora a fazer um intervalo retemperador. Conversam entre si em frente das passadeiras paradas, enquanto bebem golinhos de água ou sumo das garrafinhas coloridas que trazem consigo. Uma delas dá um trago da sua bebida de tom violáceo e faz um involuntário esgar de desagrado. O idoso oferece-lhe um sorriso solidário: “coitadinha, está azedo, está? Se calhar esqueceu-se do açúcar…”

A rapariga reparou no casal pela primeira vez e sorriu também, respondendo com a voz desnecessariamente elevada: “não, não, isto não é doce!” E acrescentou, no mesmo tom alto e pausado: “é uma bebida detox”.

Os velhotes miraram a bebida com ar confuso, o que instou a jovem a acrescentar o generoso esclarecimento: “então, é assim uma espécie de bebida com ingredientes que desintoxicam o organismo; esta, por exemplo, tem sementes de chia, pepino, couve roxa e beterraba.” Conclui, nitidamente satisfeita com aquele seu momento de interacção educativa. As outras anuem com acenos de cabeça e exemplificam beberricando elas próprias as suas bebidas multicores.

“Ah, muito bem… nós nunca bebemos isso”, confessa o velhote, “ comemos é sopa”.

“Então, homem, vai dar ao mesmo. Não vai?”, pergunta a senhora com um sorriso afável. A questão faz as raparigas abanar a cabeça, num misto de incredulidade e condescendência.

“Claro que não!”, explica a primeira, com um revirar complacente dos olhos. E continua, na senda da generosidade educativa: “esta bebida é diferente: estes produtos são superalimentos e quando chegam ao estômago espalham-se i-me-di-a-ta-men-te no sangue e vão pelo corpo inteiro a eliminar as toxinas, até limpam os neurónios, que são umas pecinhas onde o cérebro guarda a inteligência! É por isso que convém ir tomando e fazendo exercício, para circular o sangue e fazer os superalimentos espalharem-se mais depressa. Estão a perceber?” – questionou, procurando assegurar-se de que a mensagem atravessava com clareza o tolhimento baço dos receptores. 

O casal idoso soltou um “ah…” fraquito e comprometido e as meninas voltaram às corridas, agora com o ânimo redobrado do dever cumprido. Os velhotes continuaram a caminhada lenta, o homem em nítido esforço de ressurreição dos membros ausentes. Um sorriso, contudo, consegue romper o semblante de esforço. “Se calhar, alguém havia de desenganar as miúdas…”, murmura. “Talvez dizer-lhe uma coisa ou duas acerca da existência do fígado e dos rins… sei lá.”

“Naaaa…” dizem em simultâneo e olham-se longamente com largos sorrisos a arregaçar as rugas.

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publicado às 18:34

Queque

por MC, em 06.03.16

Os corredores do hipermercado fervilham na azáfama de sexta-feira à tarde. As pessoas circulam apressadas e alheias à presença dos outros, a deitar contas de cabeça ao muito que ainda têm de fazer, o cansaço de uma semana de trabalho a vergar os braços que empurram os carros. As filas das caixas alongam-se como carreiros inconsistentes de formigas, as pessoas enervam-se com a demora, a impaciência percebe-se nos olhos e nos gestos.

A fila mais curta é a da caixa prioritária, onde algumas pessoas arriscam a espera, lançando de quando em vez olhadelas furtivas por trás do ombro, pesando a eventualidade de alguém vir a usufruir do privilégio de passar à frente. Uma senhora abeira-se do início da fila e declara, num tom desnecessariamente alto: “desculpem, mas esta caixa é prioritária e eu tenho o direito de passar primeiro, porque trago uma criança!” As pessoas olham para ela, num misto de aborrecimento e resignação que rapidamente se transforma em surpresa. A senhora é alta, jovem e vistosa. No braço traz uma graciosa carteira de onde espreita a ponta de uma revista, na mão o telemóvel de capa cor-de-rosa. De compras, nem sinal; criança, muito menos.

Alguns metros atrás, vem o carrinho das compras, uma pequenita sentada na cadeirinha meneia-se rapidamente para um lado e para o outro, agitando uma nuvem de caracolinhos loiros que voam em todas as direcções como pequenas molas douradas, o homem a empurrar, meio escondido atrás da miudita, talvez encavacado com o despudor da senhora.

As pessoas olham para ela, embaçadas com o espavento da situação, uma senhora ainda repara: “mas a menina já é crescida… e nem está ao colo”, mas já a outra puxou o carrinho para a sua beira, já estabeleceu um perímetro só seu na frente da passadeira rolante, escudada na postura defensiva da anca, já abalroou o respeitável público com o seu arrojo justiceiro. Absolutamente indiferente aos olhares fuzilantes, às respirações ruidosas e iradas, ao bater recriminador dos pezinhos, a senhora continua a distribuir as compras no tapete rolante, até que a pequenita perguntou: “mamã, onde está o meu queque?”

A senhora interrompe a tarefa para oferecer à menina um sorriso tranquilizador: “deve estar aqui no meio das compras, querida. A mamã já dá.”

“Quero agora”, reivindica a garota, “quero agora, tenho fome”. A senhora deita ao homem um olhar interrogativo e dirige-se-lhe pela primeira vez desde que estão ali: “Ó Artur, que é do queque da menina?” O Artur encolhe os ombros, embaraçado, e meneia discretamente a cabeça para um lado e para o outro. Ela devolve-lhe um olhar inquisitivo, sobrancelhas franzidas de insatisfação, e murmura: “Não trouxeste…?” Ao que ele repete o movimento negativo da cabeça. “Então tu não viste a fila para a padaria? Mais de trinta números à nossa frente!” justifica-se, corado. E acrescenta, abrindo muito os olhos, como quem quer fundamentar a sua razão: “E tu estavas cheia de pressa, não estavas?”

“Ó Artur, deixa-te de desculpas! Parece impossível! Sabes bem que a miúda quer aquele bolo sempre que vimos aqui! Ela está farta de o pedir, desde que entrámos! Valhamedeus, Artur! Era só o que faltava!”, metralha, a irritação a serrar-lhe os dentes. “Anda, mexe-te!”, instiga-o. O Artur olha-a aturdido e um “quê?” sumido e raquítico solta-se dos lábios secos. “Vai lá buscar a treta do bolo!” berrou-lhe, abespinhada – e virou-lhe as costas para ensacar os últimos artigos.

A menina da caixa, aturdida, ensaia o discurso da sensatez: “a senhora desculpe, mas isto não pode ser… a senhora passou à frente dos outros clientes que já estavam na fila e agora não é correcto ficarmos aqui todos à espera do senhor… quer dizer… do queque… não é?”, terminou, a voz a sumir-se-lhe na garganta à medida que a senhora endurecia o olhar e a postura, os ombros levantados e o corpo empertigado em posição de guerrilha.

“É que nem pense! Era o que faltava! Eu tenho os meus direitos, ouviu? E não vou permitir que ninguém os ponha em causa, ouviu bem? Nem a senhora nem ninguém, percebeu? Não querem lá ver? O seu patrão não lhe ensinou que o cliente é que tem razão? Não sabe que eu posso pedir o livro de reclamações? Ora essa! O respeitinho é muito bonito!” E ali ficou, no palco improvisado do átrio do hipermercado, a plateia embasbacada e dormente perante a pobreza crua da comédia inesperada.

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publicado às 22:46

A minha família

por MC, em 28.02.16

A minha família

Eu gosto muito da minha família. A minha família é boa. Na minha família somos muitos e gostamos uns dos outros. Dantes éramos só eu, o pai e a mãe, mas agora a avó Becas e a tia Vanessa também mudaram cá para casa porque a tia Vanessa zangou-se com o noivo e afinal ele já não quer casar com ela e ele deve estar muito furioso com ela porque atirou as coisas dela pela janela e a tia Vanessa gritou muito quando andava de cu para o ar a apanhar os sapatos e as meias e as camisolas no passeio e gritou ainda mais porque as cuecas caíram para trás do contentor da rua e ela chamou-lhe c*brão de m*rda roupas tão caras mal empregadas ficaram todas estragadas e chamou muitos nomes feios à mãe do seu noivo e a ele também. A avó Becas ainda tentou acalmá-la e fez-lhe festinhas e disse-lhe deixa lá filha foi melhor assim que tu és boa demais para aquele grunho que não sabia dar-te valor e sempre que me encontrava no corredor fazia aqueles olhos de charroco enjoado e tratava-me sem respeito nenhum apesar de eu ser praticamente um ano mais velha que ele.

Foi assim e agora a avó Becas dorme no meu quarto e a tia Vanessa fica no sofá da sala e isto é uma coisa boa porque a mãe diz que a família deve estar sempre em primeiro lugar e está sempre a lembrar ao pai que temos de estar lá uns para os outros e eu percebo que o pai não concorda assim tanto com aquela parte de “estar lá” porque ele revira muito os olhos e às vezes eu vejo que ele dá pontapés e diz f*da-se quando tropeça nos sacos de roupas da avó Becas e às vezes quando ele está no sofá a ver os apanhados e a mãe diz que é hora de as pessoas descansarem que é para ele desopilar do sofá e não lhe traz mais nenhuma jola o pai enerva-se e atira com o pires das cascas das pevides e também diz outra vez f*da-se.

Eu cá gosto de viver com a minha família e não me importo nada de estarmos mais apertadinhos porque agora quando o pai e a mãe se zangam já não gritam tão alto e o pai já não dá tantas chapadas na mãe quando está com os nervos. O meu pai é bonzinho mas muitas vezes irrita-se com a mãe e espeta-lhe umas galhetas, mas é porque ele gosta muito dela e fica chateado quando ela o contraria. Eu dantes escondia-me atrás do sofá quando eles andavam à bulha e ficava lá a pensar que era muito estranho isso de gostar de uma pessoa e mesmo assim aviar-lhe uns bananos, mas agora já percebi que sim senhor deve ser verdade, porque às vezes quando a tia Vanessa está na casa de banho a pintar os olhos ou a esticar o cabelo o pai passa e dá-lhe uma palmada com força no rabo e ela dá um grito mas não fica zangada, ri-se para ele e vê-se que eles dão-se muito bem. A minha família é fixe.

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publicado às 16:59


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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